O curso de Relações Internacionais vem se consolidando no país à medida que mais empresas nacionais se internacionalizam e a economia globalizada torna o indivíduo cidadão do mundo e os governos estrangeiros partes de um castelo de cartas. Isso é ótimo do ponto de vista profissional e melhor ainda para a academia que encontra novos desafios para a teoria e seus debates, tirando a centralidade de discussões já ultrapassadas e que apresentam inúmeras falhas frente a realidade.
Mas, um conflito existencial aflige quase todos os estudantes de RI em Brasília em determinado momento do curso. A principal motivação é a generalidade e imensa gama de temas que a disciplina aborda. Se diz que o internacionalista pode ser o que quiser, bastando se especializar naquilo que prefere. Tal alegação é vaga e superficial e só aumenta a dúvida pessoal quanto a sua escolha. Outra motivação é o campo de trabalho que é ao mesmo tempo vasto e limitado.
Diz-se que para estar empregado, o profissional tem que ser muito bom. Rechaço tal argumento pois em qualquer área deve-se estar preparado para enfrentar os desafios da sua profissão. No entanto, a vastidão de conhecimento exigida do estudante se reproduz depois ao atuar no mercado, pois o pensamento deve englobar vários fatores e focos de análise, não raro, complexos. E para quem não é tão bom, há mercado?
A primeira alternativa são os concursos. Não desmereço os funcionários públicos, há pessoas que têm perfil para tal campo e lá saem bem melhor do que na iniciativa privada. No entanto, o conhecimento exigido de um internacionalista que pleteia o governo federal, estadual ou municipal como patrão é diferente do que um internacionalista que oferece consultoria econômica ou política deve ter. São áreas distintas e que encontram aplicação e oferta em Brasília.
Cada vez mais o Instituto Rio Branco deixa de ser a única opção de concurso dos internacionalistas e vagas específicas em Autarquias, Ministérios, no Legislativo e Judiciário surgem. O INMETRO, o TCU e a APEX são exemplos de órgãos que já abriram vagas para bacharéis em Relações Internacionais. Até as Forças Armadas já têm concurso específico, pelo qual o candidato ingressa em uma das forças como tenente da reserva e lá pode permanecer por até oito anos. E não para por aí. O conhecimento generalizado permite atuar em áreas interessantes, como a de Especialista em Políticas Públicas, carreira do MPOG, e Analista de Comércio Exterior, cargo do MDIC, ambos com salários equivalentes ao de diplomata.
O ponto negativo da cidade é que internacionalistas independentes dificilmente encontram colocação profissional junto ao governo. Por exemplo, a assessoria internacional do GDF é chefiada por um diplomata ou por uma indicação política que será assessorada por um quadro burocrático especializado. No entanto, vários consultores atuam junto a embaixadas, consulados e ao governo exercendo consultoria política e se valendo da facilidade de obter e contato com a informação que há aqui.
Contudo, Brasília não é feita economicamente só pelo governo. Há empresas de importação e exportação em todo o quadradinho e novas chegando no entorno periodicamente. A logística, uma área propícia para o profissional, também está ganhando contornos importantes, não só no DF (centro do país) como no centro-oeste como um todo (fronteiras com vizinhos, hidrovias, rodovias, porto seco de Anápolis e ferrovia norte-sul). Goiás também apresenta uma capacidade incipiente em crescimento, a JBS-Friboi, por exemplo, capa da revista Exame deste mês, é uma empresa goiana. Algumas empresas do setor agrícola já têm vaga específica para graduados em RI em seus programas de trainee e a maioria está na região.
No DF há um potencial gigantesco para internacionalizar alguns produtos e outras empresas, como o famoso caso das artesãs do Varjão que exportam sua produção para a Europa graças ao trabalho de estudantes de RI. Por ter o maior PIB per capita do país, a exigência com alguns produtos é muito alta, o que torna tal produção compatível com os padrões exigidos no exterior.
Há Câmaras de Comércio e Escritórios comerciais que demandam mão de obra especializada e aqui há um diferencial em relação aos economistas e administradores que ou focam sua graduação em concursos ou em uma formação essencialmente teórica. Vale ressaltar que Comércio Exterior na capital é sinônimo de RI, não há cursos de graduação nessa área.
Há também a mídia e os veículos de comunicação. Embora os jornalistas detenham, assim como os bacharéis em Direito, uma reserva de mercado, o internacionalista é um profissional tecnica e intelectualmente habilitado para efetuar análises de conjuntura e cenários. A maioria dos jornais impressos de grande porte e expressão do país e que possuem correspondentes têm representação em Brasília. Além disso, todas as mídias estrangeiras passam mais cedo ou mais tarde pelo Ministério das Relações Exteriores para se credenciar e cobrir algum evento internacional. Eis a oportunidade para aqueles que têm pela escrita paixão e pelos fatos atração de se inserir e crescer na área.
Os organismos internacionais também ofertam vantajosos e atrativos postos profissionais que propiciam desenvolvimento na órgão dentro e/ou fora do país. Em geral, as representações mais importantes estão em Brasília. Vários estagiários conseguem posteriormente uma colocação e dali partem para o mundo. E tenha certeza de que além do compensamento financeiro, a ONU é gratificante enquanto ambiente de trabalho e devido aos temas com que lida, o internacionalista pode escolher o órgão e assunto que mais lhe agradar.
Uma área muito falada e que atrai muitos estudantes, mas pelo fator múltiplo conhecimento exigido supracitado logo desmotiva alguns, é a consultoria. Ela pode ser de vários tipos e demanda bons contatos, uma visão micro e macro interdialogada e que confira resultados a curto prazo com reflexos no longo prazo e, não poderia faltar, domínio da área em que se atua - afinal, o consultor é contratado para lidar com uma área em que a empresa ou cliente não consegue mais pugnar. Três tipos se destacam na região: ambiental, política e comercial. E as empresas que prestam tais serviços em geral são do sudeste brasileiro que aqui têm consultores associados ou subsidiárias. Mas, como aconteceu com a área de marketing que até pouco tempo dependia quase que inteiramente das agências publicitárias paulistas ou cariocas e hoje já trabalha de forma autônoma baseada em empresas aqui sediadas e voltadas para a demanda regional, a região tem internacionalistas capacitados e empreendedores o suficiente para ser consultores. Note que após se especializar no exterior ou em outras regiões, se ele não se encontra profissionalmente onde está vivendo, o profissional volta para o DF ou seu estado de origem.
Outra área com expressivo crescimento é a academia. Como se sabe, o curso surgiu na UnB na década de 70. De 1990 para cá houve uma explosão na oferta e demanda do mesmo em todo o Brasil. E bons professores são cada vez mais procurados. Devido ao mestrado e doutorado da UnB atraírem estudantes e profissionais do Brasil todo, muitas faculdades têm uma rotatividade grande de professores, ainda que seja a cada 4 anos. E o profissional que aqui se qualifica encontra colocação, já que o network nessa área acadêmica flui muito rápido. Outra razão relaciona-se à existência de sete faculdades particulares e só uma pública com RI.
Por fim, vale salientar o potencial turístico da região. A copa do mundo e as Olimpíadas vêm aí. Ninguém melhor do que nós para lidarmos com estrangeiros que querem conhecer nosso país. O ecoturismo vem crescendo na região e é uma demanda estrangeira importante. Além do mais, lidar com sonhos e experiências alheias é uma área em que os profissionais de humanas e com uma formação multicultural saem-se muito bem.
A consolidação profissional do curso de RI depende de nós formandos e dos que já atuam no mercado. Orientar sua graduação para concursos de nível superior ou a academia que seja não é errado e não deve ser criticado, pelo contrário, só confere visibilidade aos titulares de tal diploma. Porém, orbitar para os mesmos alegando falta de empregos é uma atitude mesquinha e preguiçosa. Em qualquer contexto que o internacionalista quiser inserir-se, mediante sua busca pessoal e intelectual, ele encontrará resultado.