quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Como assim nova ordem mundial?

Hoje no IESB fomos brindados com uma breve palestra do português António de Almeida Santos. Influente no seu país, é advogado, jurista e preside o Partido Socialista. É também acadêmico e testemunha ocular do processo de emancipação política em países lusófonos na África. Sua visita a Brasília se dá para lançamento e divulgação do seu mais novo livro "Que nova ordem mundial?".

Em sua apresentação vários temas de relevância para as RI foram levantados. Mas tudo começou de uma perspectiva econômica.

Há alguns anos a política e a economia eram áreas que se mesclavam e a ordem política conseguia claramente ditar regras à economia. Hoje essa simbiose não mais existe. A economia é independente e sobrevive sem regras ou leis limitando seu potencial e capacidade. O que é bom e ruim, ao mesmo tempo. Bom porque é do espírito capitalista desenvolver-se por, entre outros fatores, conta da concorrência. Ruim porque as necessidades humanas são deixados de lado em prol do lucro. António Silva cita Lacordaire: "Entre o forte e o fraco, entre o rico e o pobre, é a liberdade que oprime e é a lei que liberta". Excerto que pode ser aplicável à economia, mas não à justiça brasileira, onde comumente quem tem dinheiro está livre e a justiça só existe para quem é justo. Aliás, se não me engano, é Fucault que afirma ter a lei como destinatário o homem correto, ao injusto cabe a sanção.

Da evolução econômica muitas assimetrias aumentaram. Ao mesmo tempo que a população mundial, atualmente cresce em um ano, o que crescia em uma década até 20 anos atrás. Não há empregos suficientes e o curioso é que o acesso à informação hoje em dia é muito mais fácil e a tecnologia muito se desenvolve, só que não são gerados tantos postos de emprego quanto a população cresce.

A mecanização da produção faz a massa de trabalhadores rurais se deslocar do campo para as cidades. O crescimento das indústrias faz, teoricamente, o número de empregados crescer. Mas, estes são substituídos por máquinas, como a linha de produção de carros da Toyota no Japão, onde segundo o palestrante não havia um operário em toda a montagem do carro. São robôs ("que não fazem greve, não têm sindicato, não têm filhos nem férias e não reivindicam aumento salarial") que ocupam o espaço do homem. E para onde essa massa migra?

Uma resposta que esperei do escritor, mas não obtive, é a relação da tríade por ele citada - demografia, violência e pobreza - com a nova ordem que se formará. Sabe-se que não é baixo o número de indivíduos que vivem na margem da pobreza no planeta. É provado que o índice de fertilidade entre os mais pobres é maior do que entre aqueles em melhores condições financeiras. Logo, sem capacidade de absorção, com o avanço da tecnologia (cada vez maior e mais rápido) e sem opções para sustento diário, a economia oferece um ambiente propício para o crescimento (ou continuidade) da pobreza e esta puxa a violência (traduzida em assaltos, sequestros e todas suas formas para obtenção de renda).

E nessa nova ordem, algo que ele já avista, a União Européia e todo seu processo de unificação servem como predecessores, o recurso de um governo mundial será utilizado para resolver os problemas que não mais regional ou nacionalmente podem ser resolvidos.

Só me fica uma dúvida: como reduzir a pobreza, como acelerar a economia (global) e como diminuir as assimetrias entre as diferentes regiões do globo por meio de um governo maior do que o nacional (que já é distante dos pequenos problemas municipais que há por todos os países)? Sim, é algo distante. Muito tem de ser feito. Problemas têm que ser resolvidos, nossa sobrevivência assegurada e pendências discutidas. Como incluir socialmente e economicamente os atuais 4 bilhões de pessoas pobres que há no mundo? Como assegurar educação para os inúmeros analfabetos (funcionais inclusive) que há pelo mundo? O que fazer para melhor distribuir a renda? Como garantir um futuro para as gerações futuras?

As Ciências Sociais vão se debruçar sobre esses temas e as Relações Internacionais, mais do que nunca, se farão presente, como fator de análise e como disciplina, nessa nova ordem mundial, seja ela como for.

domingo, 8 de novembro de 2009

Depois de Lenin, Gaddafi e Hitler, vem da Angola o mais novo culto à imagem

Grupo critica foto de líder angolano em carteiras de identidade

A inclusão de um retrato do presidente angolano, José Eduardo dos Santos, nas novas carteiras de identidade do país é ultrajante e contraria os princípios da democracia, afirmou um grupo de defesa dos direitos humanos. Os documentos de identidade trazem as informações de praxe sobre o dono do cartão em um lado, e no verso há uma imagem de Santos e uma do primeiro presidente de Angola, Agostinho Neto.

Fonte: Jornal do Brasil

Se bem que, seria engraçada e sugestiva uma nota de R$ 4,00 com a foto do Lula.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A água mole na pedra dura do trânsito no DF

Brasília passa por um sério problema de tráfego urbano. Qualquer um que quiser ir para casa por volta de 18h00 sabe que chegará junto com o "Olá, boa noite" do William Bonner. Os engarrafamentos são constantes e crescem à velocidade dos processos acumulados na justiça.

Devido a pressa, muitos motoristas ignoram a sinalização e querem ser mais espertos que outros, tomando a dianteira ou infiltrando em espaços menores que o seu carro. O resultado são infrações de trânsito, acidentes e mais horas de espera. Além da questão ambiental, sonora, social e outras adjacentes: mais poluentes sendo lançados pelo escapamento, mais combustível sendo gasto, mais petróleo sendo extraído, mais guerras surgindo por conta disso, mais barulho para os que ouvem balas e explosões no Iraque e para quem fica contido dentro do seu carro ou de um ônibus.

A solução para os formuladores de políticas públicas e engenheiros de tráfego é aumentar as avenidas. Pelo menos é o que têm feito. Em muitas regiões, o Distrito Federal parece um canteiro de obras, são ruas sendo abertas e viadutos em construção. Provavelmente, tal solução surgiu quando o número de veículos registrados no DF não passava de um milhão, hoje não só ultrapassou esse valor como continua crescendo dia após dia.

Brasília é uma cidade de novos ricos. Aqui se ganha muito dinheiro e rapidamente, falo isso analisando a quantidade de vagas em concursos que há mensalmente. O indivíduo passa um, dois, três anos se preparando para um (ou vários, na maioria dos casos) concursos e quando passa, seu primeiro grande ato é comprar um ou trocar de carro. A alegação é a de que o sistema público de transporte é ineficiente.

De fato, não defendo as empresas de ônibus atuantes, mesmo que na verdade elas sejam duas ou três. Com sua marca nos ônibus, há umas oito, mas o oligopólio fala mais alto e o proprietário de metade delas é o mesmo. E assim os problemas sempre partem da mesma sementinha do mal e de seus desejos obscuros que tornam transporte público (assim como acontece com a educação às vezes) um objeto e não um bem, como deveria ser.

No entanto, transporte público é de longe a melhor alternativa para diminuir o número de carros no trânsito. Mas só pode funcionar quando é pontual, confortável, acessível (financeira e estruturalmente) e ágil. Sendo assim, o Distrito Federal pode ser um estudo de caso interessante para analisar essas condicionais e principalmente a falta delas.

O lugar onde ele melhor funciona é dentro do Plano Piloto onde há extenso número de linhas e veículos disponíveis quase que concomitantemente para os que aqui dentro se locomovem. Entre o Plano e as Cidades Satélites é que surge o drama. Os ônibus são raros para algumas localidades mais distantes e para as mais habitadas são escassos. O valor da passagem é alto quando depara o fator custo-benefício. A velocidade com que o veículo se locomove e por consequência os passageiros chegam ao seu destino depende do horário, mas nunca passa de 30 minutos, ainda mais porque o estado é conhecido por "onde tudo é longe". As paradas são distantes e não raro ficam em lugares perigosos: mal-iluminados, desertos e isolados. E por fim, o governo não dá muita importância para quem utiliza e depende desse meio de transporte. E quem são eles?

Já que ônibus não é tão atrativo e o metrô além de lotado não atende a todas as localidades (um grande erro de todas as gestões nos últimos 15 anos), andar em transporte público é alternativa única para quem não tem carro ou condições de manter seu próprio veículo. Podem estar empregados na Esplanada, mas em sua maioria, não é quem formula políticas públicas e nem quem ganha mais de três salários mínimos. É a popular base da sociedade, a razão de ser do capitalismo exploratório.

Ao meu ver, tal condição incentiva a permanência de um lado dos problemas das empresas de ônibus e por outro do trânsito (aumenta o número de carros, o tamanho das avenidas e a falta de atenção com o transporte público). Se ônibus e metrô fossem alternativas consideráveis e escolhidas com frequência, a fiscalização seria muito mais contudente e eficaz. Sem contar que aumentando a demanda, provavelmente o número de linhas, ônibus e bairros atendidos também aumentaria. Contrariamente ao que dizem, é interesse das empresas do setor de transportes ganhar dinheiro, se aumenta o número de passageiros e não o número de veículos que os atendem, a demanda diminui e outras alternativas serão encontradas que não aquele mesmo meio. Tal falácia vai no mesmo caminho da de que no Brasil não há um moderno e vasto sistema ferroviário por lobby das empresas petrolíferas e automobilísticas, ainda na década de 50.

O provérbio "a união faz a força" se encaixa perfeitamente ao que tento demonstrar. Se mais pessoas aderem ao transporte público, o poder de barganha da sociedade frente ao empresariado e ao governo será maior. Só reclamar que o governo não faz nada e que os empresários "pouco se lixam" para seus mantenedores é uma atitude preguiçosa (por mais cultural que tal posição seja em nosso país).

Considero o transporte público uma importante contribuição para resolver os problemas que as grandes metrópoles brasileiras vêm enfrentando. Mas, o público que acompanha seu nome e função demanda participação, valorização e contribuição de todos os setores da sociedade. Nosso país e a condição de vida diária de cada um só podem melhorar mediante atitudes individuais de dimensões globais. Enquanto o individualismo, representado neste texto pela locomoção solitária de um motorista por carro, prevalecer no imaginário nacional, o problema de todos continuará afetando um a um.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A better world to live, yes we can!

Hoje é o dia mundial de ação dos blogs para conter o aquecimento global e cobrar dos governantes que vão a Copenhague em dezembro uma postura pragmática perante os desafios climáticos deste século que se inicia abarrotado de problemas. 106 países já participam do movimento mas qualquer benefício obtido será repartido entre os mais de 247 países que integram esse mundão de meu Deus.

Acesse o site http://www.tictactictac.org.br/ e se informe sobre a Campanha Global de Ações pelo Clima, afinal, sete de dezembro representa um marco político, mas sua vida é o referencial para todo movimento que discuta a manutenção sustentável do planeta.

Tem mercado para internacionalista em Brasília?

O curso de Relações Internacionais vem se consolidando no país à medida que mais empresas nacionais se internacionalizam e a economia globalizada torna o indivíduo cidadão do mundo e os governos estrangeiros partes de um castelo de cartas. Isso é ótimo do ponto de vista profissional e melhor ainda para a academia que encontra novos desafios para a teoria e seus debates, tirando a centralidade de discussões já ultrapassadas e que apresentam inúmeras falhas frente a realidade.

Mas, um conflito existencial aflige quase todos os estudantes de RI em Brasília em determinado momento do curso. A principal motivação é a generalidade e imensa gama de temas que a disciplina aborda. Se diz que o internacionalista pode ser o que quiser, bastando se especializar naquilo que prefere. Tal alegação é vaga e superficial e só aumenta a dúvida pessoal quanto a sua escolha. Outra motivação é o campo de trabalho que é ao mesmo tempo vasto e limitado.

Diz-se que para estar empregado, o profissional tem que ser muito bom. Rechaço tal argumento pois em qualquer área deve-se estar preparado para enfrentar os desafios da sua profissão. No entanto, a vastidão de conhecimento exigida do estudante se reproduz depois ao atuar no mercado, pois o pensamento deve englobar vários fatores e focos de análise, não raro, complexos. E para quem não é tão bom, há mercado?

A primeira alternativa são os concursos. Não desmereço os funcionários públicos, há pessoas que têm perfil para tal campo e lá saem bem melhor do que na iniciativa privada. No entanto, o conhecimento exigido de um internacionalista que pleteia o governo federal, estadual ou municipal como patrão é diferente do que um internacionalista que oferece consultoria econômica ou política deve ter. São áreas distintas e que encontram aplicação e oferta em Brasília.

Cada vez mais o Instituto Rio Branco deixa de ser a única opção de concurso dos internacionalistas e vagas específicas em Autarquias, Ministérios, no Legislativo e Judiciário surgem. O INMETRO, o TCU e a APEX são exemplos de órgãos que já abriram vagas para bacharéis em Relações Internacionais. Até as Forças Armadas já têm concurso específico, pelo qual o candidato ingressa em uma das forças como tenente da reserva e lá pode permanecer por até oito anos. E não para por aí. O conhecimento generalizado permite atuar em áreas interessantes, como a de Especialista em Políticas Públicas, carreira do MPOG, e Analista de Comércio Exterior, cargo do MDIC, ambos com salários equivalentes ao de diplomata.

O ponto negativo da cidade é que internacionalistas independentes dificilmente encontram colocação profissional junto ao governo. Por exemplo, a assessoria internacional do GDF é chefiada por um diplomata ou por uma indicação política que será assessorada por um quadro burocrático especializado. No entanto, vários consultores atuam junto a embaixadas, consulados e ao governo exercendo consultoria política e se valendo da facilidade de obter e contato com a informação que há aqui.

Contudo, Brasília não é feita economicamente só pelo governo. Há empresas de importação e exportação em todo o quadradinho e novas chegando no entorno periodicamente. A logística, uma área propícia para o profissional, também está ganhando contornos importantes, não só no DF (centro do país) como no centro-oeste como um todo (fronteiras com vizinhos, hidrovias, rodovias, porto seco de Anápolis e ferrovia norte-sul). Goiás também apresenta uma capacidade incipiente em crescimento, a JBS-Friboi, por exemplo, capa da revista Exame deste mês, é uma empresa goiana. Algumas empresas do setor agrícola já têm vaga específica para graduados em RI em seus programas de trainee e a maioria está na região.

No DF há um potencial gigantesco para internacionalizar alguns produtos e outras empresas, como o famoso caso das artesãs do Varjão que exportam sua produção para a Europa graças ao trabalho de estudantes de RI. Por ter o maior PIB per capita do país, a exigência com alguns produtos é muito alta, o que torna tal produção compatível com os padrões exigidos no exterior.

Há Câmaras de Comércio e Escritórios comerciais que demandam mão de obra especializada e aqui há um diferencial em relação aos economistas e administradores que ou focam sua graduação em concursos ou em uma formação essencialmente teórica. Vale ressaltar que Comércio Exterior na capital é sinônimo de RI, não há cursos de graduação nessa área.

Há também a mídia e os veículos de comunicação. Embora os jornalistas detenham, assim como os bacharéis em Direito, uma reserva de mercado, o internacionalista é um profissional tecnica e intelectualmente habilitado para efetuar análises de conjuntura e cenários. A maioria dos jornais impressos de grande porte e expressão do país e que possuem correspondentes têm representação em Brasília. Além disso, todas as mídias estrangeiras passam mais cedo ou mais tarde pelo Ministério das Relações Exteriores para se credenciar e cobrir algum evento internacional. Eis a oportunidade para aqueles que têm pela escrita paixão e pelos fatos atração de se inserir e crescer na área.

Os organismos internacionais também ofertam vantajosos e atrativos postos profissionais que propiciam desenvolvimento na órgão dentro e/ou fora do país. Em geral, as representações mais importantes estão em Brasília. Vários estagiários conseguem posteriormente uma colocação e dali partem para o mundo. E tenha certeza de que além do compensamento financeiro, a ONU é gratificante enquanto ambiente de trabalho e devido aos temas com que lida, o internacionalista pode escolher o órgão e assunto que mais lhe agradar.

Uma área muito falada e que atrai muitos estudantes, mas pelo fator múltiplo conhecimento exigido supracitado logo desmotiva alguns, é a consultoria. Ela pode ser de vários tipos e demanda bons contatos, uma visão micro e macro interdialogada e que confira resultados a curto prazo com reflexos no longo prazo e, não poderia faltar, domínio da área em que se atua - afinal, o consultor é contratado para lidar com uma área em que a empresa ou cliente não consegue mais pugnar. Três tipos se destacam na região: ambiental, política e comercial. E as empresas que prestam tais serviços em geral são do sudeste brasileiro que aqui têm consultores associados ou subsidiárias. Mas, como aconteceu com a área de marketing que até pouco tempo dependia quase que inteiramente das agências publicitárias paulistas ou cariocas e hoje já trabalha de forma autônoma baseada em empresas aqui sediadas e voltadas para a demanda regional, a região tem internacionalistas capacitados e empreendedores o suficiente para ser consultores. Note que após se especializar no exterior ou em outras regiões, se ele não se encontra profissionalmente onde está vivendo, o profissional volta para o DF ou seu estado de origem.

Outra área com expressivo crescimento é a academia. Como se sabe, o curso surgiu na UnB na década de 70. De 1990 para cá houve uma explosão na oferta e demanda do mesmo em todo o Brasil. E bons professores são cada vez mais procurados. Devido ao mestrado e doutorado da UnB atraírem estudantes e profissionais do Brasil todo, muitas faculdades têm uma rotatividade grande de professores, ainda que seja a cada 4 anos. E o profissional que aqui se qualifica encontra colocação, já que o network nessa área acadêmica flui muito rápido. Outra razão relaciona-se à existência de sete faculdades particulares e só uma pública com RI.

Por fim, vale salientar o potencial turístico da região. A copa do mundo e as Olimpíadas vêm aí. Ninguém melhor do que nós para lidarmos com estrangeiros que querem conhecer nosso país. O ecoturismo vem crescendo na região e é uma demanda estrangeira importante. Além do mais, lidar com sonhos e experiências alheias é uma área em que os profissionais de humanas e com uma formação multicultural saem-se muito bem.

A consolidação profissional do curso de RI depende de nós formandos e dos que já atuam no mercado. Orientar sua graduação para concursos de nível superior ou a academia que seja não é errado e não deve ser criticado, pelo contrário, só confere visibilidade aos titulares de tal diploma. Porém, orbitar para os mesmos alegando falta de empregos é uma atitude mesquinha e preguiçosa. Em qualquer contexto que o internacionalista quiser inserir-se, mediante sua busca pessoal e intelectual, ele encontrará resultado.

2014 e 2016: chance de mostrar o país que vem aí

Quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo em 2014 eu fiquei alegre, é como se o bom filho à casa retornasse: uma copa no país do futebol. Porém não fiquei tão contente com a escolha das Olimpíadas. Já com um senso crítico mais apurado e não pensando no benefício instantâneo que tal evento traz, mas nas consequências a longo prazo.

De fato, as cidades-sede tornarão canteiros de obra até 2014 e o Rio mais ainda até 2016. Porém vejo dois problemas graves, o primeiro é o de que as obras ainda não começaram, mesmo na iminência de conseguir sediar os eventos a inanição permaneceu, e a segunda preocupação se relaciona ao prazo "até tal ano".

Em postagem anterior eu já disse que é a chance que temos de inserir na agenda novas políticas públicas voltadas para a modernização e o desenvolvimento, bem como resolver algumas assimetrias sociais e estruturais que permeiam nossa sociedade. E não vejo tal esforço sendo feito ou pelo menos pensado.

É da nossa matriz cultural e política resolver problemas emergencialmente e não pensar a longo prazo. Uns dizem que isso é porque nunca tivemos uma guerra que assolasse o país a ponto de a visão do que se busca mudasse do imediato para o distante. Mas acho que o problema é mais antigo, vem desde a época em que o Brasil era colônia e as decisões vinha de Portugal, como tudo demorava muito a chegar, pouco se fazia no intermédio. Nem as capitanias hereditárias conseguiram mudar essa linha de pensamento. Depois veio o distanciamento político entre elite e massa que alienou esta e isolou as decisões dentro de uma cúpula. A democracia é um fenômeno recente para nós, afinal ela só tem sido de fato experimentada desde 1988.

Tudo isso faz com que os problemas crescam e uma política pública venha para resolvê-lo. Aliás, essa é uma discussão acadêmica sobre o que são políticas públicas, uma definição diz que são políticas desenhadas para resolver outras que não deram certo. E assim um ciclo vicioso perdura. E propaga o erro. Não é hora mais de continuar com esse pensamento pequeno. O país já assumiu internacionalmente dimensões que desconhece, saímos do conhecido país do futebol para um país que exporta, importa, participa de debates internacionais e lidera grupos regionais ou de interesse em foros específicos. Esse tamanho e importância têm que ser percebidos internamente também.

Eficiência é o que devemos apresentar para os outros países em 2014. Afinal, o que difere os países emergentes daqueles em desenvolvimento é a capacidade de gestão e crescimento econômico. Faça jus Brasil!

Capacidade de planejar a longo prazo e gerir "racionalmente" o dinheiro público é o que devemos mostrar aos brasileiros. Mais do que tapar buracos nas rodovias, controlar a criminalidade colocando milhares de homens armados nas ruas (apenas para conter e não combater a criminalidade diária), criar novas linhas e incentivar que empresas disponham mais ônibus para os turistas e ajeitar temporariamente, ao jeitinho brasileiro, a infraestrutura de trânsito, hotelaria e hospitaleira do país, temos a oportunidade de mostrar aos brasileiros que se faz um evento para eles e não para estrangeiros verem.

Não me preocupo com o que os outros veem aqui. Afinal, quem precisa de um trânsito que flua, transporte público confortável, eficiente e barato e um hospital com médicos 24 horas é quem trabalha, vive e paga impostos no país. Mais do que obrigação, aqueles que pensaram em lançar a candidatura brasileira a sede de tais eventos esportivos têm o dever, bem como seus sucessores, de construir um país e não rebocar os buracos e jogar uma "mão de cal". Se assim for, logo que vierem as primeiras chuvas fortes, o reboco será levado.

Energia nuclear: o Brasil ainda tem medo

Em matéria publicada recentemente no América Economía é apresentado que no Brasil a corrida das megaempresas estrangeiras da energia nuclear já começou. O Plano Nacional de Energia do ano passado prevê entre outras ações, que até 2030 de 4 a 8 usinas sejam construídas. Uma média de duas por ano, aumentando gradativamente a velocidade de construção para uma por ano. Mas a pergunta que paira é: elas serão construídas para funcionar ou para integrar o parque "vagalumioral" nuclear brasileiro?

O Brasil tem potencial para produzir, explorar e manipular a energia nuclear. E esse era um sonho dos governos militares que entre algumas boas ações, tomaram a iniciativa neste campo. Somos ricos em minerais radioativos, principalmente areias e urânio. Um dos pontos daquela discussão sobre a legalidade da reserva indígena Raposa Serra do Sol envolvia justamente a presença exorbitante de isótopos radioativos no subsolo da mesma. No entanto, essa é mais uma capacidade inexplorada. Sob a ótica do meu pessimismo, o país do futuro anda um tanto quanto acomodado.

A energia nuclear é uma opção viável, "limpa" e que traz benefícios não só elétricos, mas também para a indústria. Frente ao parque hidrelétrico instalado no Brasil ela perde, claro. Mas, em comparação com outras energias alternativas apresenta resultados satisfatórios. Isso porque nem discuto a inanição governamental frente ao potencial elétrico-solar do Nordeste.

O país parece que tem medo. Medo de arriscar e entrar de vez nesse campo. Medo de desenvolver sua própria tecnologia (na matéria que citei é dito: o contrato para concessão do reator é para toda sua vida útil, pois a manutenção é da empresa que fornece), ainda que tenha meios técnicos e condições financeiras para isso. Medo de ter uma posição mais agressiva na mesa de negociações e bater de frente com qualquer proposta que não nos favoreça. Como aquele com a Alemanha nunca mais, provavelmente, haverá. Só que posição teimosa como a do episódio conhecido como diplomacia do fiasco, que por um lado mostrou aos outros países a consistência e coerência da luta pelos interesses nacionais, mas por outro representou o péssimo senso de oportunidade do país à época, está demorando para se repetir.

É claro que para um país acostumado a discutir o amanhã, pensar daqui a 30 anos é uma tarefa árdua. Mas é um caminho e espero que uma tendência. Negociar hoje imaginando as repercuções e o cenário imperante daqui três décadas é mais árduo ainda, porém é a receita ideal para alcançar satisfatoriamente o que se deseja e confirmar o que meu avô dizia, "somos um país do futuro".