18 de janeiro de 2012

Cursos de RI no Brasil: novidades!

Fiz recentemente um levantamento dos endereços de todos os cursos de Relações Internacionais, Agronomia e Comércio Exterior do país para o meu trabalho. Fiquei impressionado com a quantidade de faculdades que já oferecem esses bacharelados e com a mudança (evolução) estrutural que percebi no curso RI de cada faculdade. Me impressionei pois, desde que comecei minha graduação em 2007, não só o número de cursos e estudantes aumentou, como também o interesse e reconhecimento do mercado pela minha área de formação, embora não haja diretriz curricular e um eixo principal que oriente os cursos.

Atualmente, você encontra RI em 20 estados brasileiros, exceto em: Acre, Alagoas, Maranhão, Mato Grosso, Piauí, Rondônia e Tocantins. Em compensação, todos esses estados têm curso tecnológico de comércio exterior. Se teu foco é trabalhar na iniciativa privada, esse curso preenche bem o espaço que RI deveria ocupar, mas se teu foco é ser diplomata ou fazer concursos, você pode optar por história ou geografia e voltar sua formação para história econômica do brasil e geopolítica do mundo.

Bem, coisas que estão mudando no bacharelado de RI:

- o tempo de formação está diminuindo, muitas faculdades já estão oferecendo o curso em 3 anos; isso é bastante contraditório pois RI é uma área que exige bastante estudo e uma sequência de aprendizagem que vai tornando as coisas lógicas, culminando na formação de um bom analista internacional: primeiro você aprende estatística, depois economia (cada faculdade dá um nome, mas em geral, é macroeconomia), depois parte para economia política e/ou economia internacional, depois sistema financeiro, depois comércio exterior, ou seja, você parte da base, cimenta seu alicerce e daí vai crescendo dentro áreas afins. Acho muito difícil que a base fique bem cimentada em 3 anos, acho difícil porque RI não é só economia ou só política ou só geografia ou só história, é uma mescla de todos e para que o analista tenha uma boa formação ele precisa de tempo para assimilar as informações. Me entristeceria muito se num futuro próximo RI virasse curso tecnológico, não por preconceito, mas pelos conhecimentos exigidos de um analista internacional (conhecimento de conjuntura).

- algumas matérias que não dizem nada continuam no curso, uma delas é teoria das relações internacionais. Por que não dizem nada? Por que muitas faculdades ainda não entenderam o que querem que RI seja (até porque ao mesmo tempo RI não é nada objetivo), daí enchem sua grade de disciplinas de economia, muita coisa sobre globalização e direito e lá no meio tem TRI. No fim, o curso tem quase toda a parte de comércio exterior, mas sem a objetividade desse curso, apenas com um nome bonitinho e TRI perdida ali no meio (que mais confunde que ajuda, no fim das contas).

- percebo que as faculdades estão tentando formar um analista mais conjuntural. Antes você tinha as disciplinas, elas estavam dentro de um eixo temático mas cada eixo ia por um caminho próprio, não havia diálogo; agora, parece que as matérias (na maior parte das faculdades que vi) dialogam entre si desde o primeiro semestre: ao estudar economia você entende a história e percebe os fatos políticos que juntos podem influenciar uma transação comercial num ambiente cultural totalmente hostil. Acho isso o máximo! Afinal, o que seria RI se não a compreensão dos diversos fatores que influenciam um cenário.

- inglês e espanhol aparecem em algumas grades mas, ainda, de forma porca. O que um analista de RI precisa não é de um professor da Wizard indo lhe dar aulas no meio da semana, o que ele precisa é entender discursos, analisar construção de frases, redigir cartas comerciais (portanto, conhecer termos técnicos) e documentos diplomáticos (não para ser diplomata, mas para conseguir o que quer pela negociação) e o principal: saber negociar em um idioma estrangeiro. E isso tudo não se aprende numa aula sobre phrasal verbs ou a conjugação do verbo to do. Se aprende praticando com a orientação correta.

- ainda faltam aulas de português aos alunos de RI, pois se parte do princípio que brasileiro só estuda português se fizer letras. Ledo engano. Durante a graduação vi muitos professores reclamando do português dos alunos, bem, o mercado se encarrega de selecionar ou excluir os internacionalistas pelas qualidades de cada profissional, no entanto, um profissional que pretende se relacionar com o mundo deve ter claro em sua cabeça que o mundo sempre o verá como brasileiro e, como tal, podem surgir oportunidades em que ele represente estrangeiros perante brasileiros ou o inverso, brasileiros para estrangeiros. A língua, a cultura e o conhecimento do Brasil serão a identidade básica desse profissional, RI vem em segundo plano. Se ele tem uma língua mal aprendida, se ele não conhece os meandros da gramática portuguesa e seu léxico, ele pode ser ótimo no que faz, mas não será completo.

- a parte prática que tantas faculdade prometem ainda não saiu do papel. É verdade que muitas estão adotando o tal "projeto integrador" (que eu acho o máximo) mas mesmo essa alternativa ainda é porcamente executada. A parte prática que todo internacionalista deveria ter à exaustão é negociação, negociar contratos, negociar reuniões para acertos políticos, negociar o acerto de parâmetros técnicos, negociar um acordo de paz, negociar inclusive em idiomas estrangeiros, em suma negociar negociar negociar, parte fundamental do nosso trabalho, independente se você quer ser diplomata, empresário, trader ou outra coisa, negociação é parte da nossa formação e parte das regras de convívio em sociedade. Observe as histórias de O Jardineiro Fiel e O Senhor das Armas, as personagens têm profissões muito diferentes, mas a negociação é parte da vida de ambos em contextos totalmente distintos. Também falta prática na execução de alguns projetos, sejam eles de cooperação, de estruturação de empresas ou simplesmente de um desembaraço aduaneiro. Vejo que muitos internacionalistas sabem, na teoria, como exportar ou importar algo, mas não fazem a mínima ideia do tempo, das dificuldades ou do que você faz quando um documento de comex não sai. Prática: faltam laboratórios práticos. No dia que as faculdades começarem a oferecer laboratórios práticos (do primeiro ao último semestre)
 acho que os alunos de RI vão começar a se sentir melhor direcionados, não vão sair do curso dizendo que não aprenderam nada.

- o curso de RI está cada vez mais focado no mercado. Não sei se é porque estudo em Brasília que ao ver um curso de RI que ofereça gestão de projetos já penso "nossa, ele está focando no mercado privado", o fato é que não tem vaga para todo mundo no Instituto Rio Branco ou nos parcos concursos que têm vaga para RI. Por isso RI tem que se preocupar em formar alunos preparados para o mercado privado ou o terceiro setor. E para ambos os casos o analista de RI precisa de uma visão gerencial: análise de processos (na verdade entendê-los, não planejá-los), estruturação de idéias, projetos e pessoas e a organização de uma empresa (organização, não administração). Isso é o básico para, suponhamos, o internacionalista planejar uma internacionalização; é o básico para um internacionalista que queira trabalhar com missões comerciais e tem de escolher que empresas irá levar; é o básico para um trader que vai escolher seus fornecedores; e é o básico para um internacionalista trabalhar na área de projetos/finanças de uma ONG ou OSCIP. Em suma, os cursos estão incorporando às RI algumas matérias de negócios, tanto é que algumas faculdades tiraram RI dos departamentos de ciências sociais e colocaram nas escolas de negócios, junto com administração e marketing.

- o interesse por empresas juniores de RI começa a aumentar mas ainda não é expressivo. Algumas faculdades têm previsto no seu planejamento estratégico a abertura de empresas juniores, isso é bom para a faculdade (ela ganha pontos nas avaliações do MEC) e melhor ainda para os alunos. Mas em RI os alunos sofrem com a dúvida: o que faz um consultor de RI e pra quem eu vou trabalhar? É difícil, exige tempo, paciência e o indispensável apoio de professores, mas é ao mesmo tempo o caminho mais acertado para resolver esses dilemas. É também uma alternativa para preencher os espaços que a faculdade deixa na formação do internacionalista: se falta algum curso, por que a empresa júnior não oferece? Se faltam estágios na cidade, por que a empresa júnior não vai atrás de projetos e depois dá estágio aos alunos de RI da sua faculdade? Se o foco da faculdade é comercial e uma parte dos alunos gosta de cooperação, por que a empresa júnior não corre atrás de palestras sobre cooperação? Há várias idéias e projetos, há espaço inclusive para várias EJs de RI numa mesma cidade; reconheço que no começo é difícil, mas é um desafio, não uma impossibilidade, além disso, é uma dificuldade gostosa, vale a pena se debruçar, os resultados são fantásticos.

Gostei muito do que eu vi. Ao todo, 120 faculdades oferecem RI no Brasil, a maioria (1/3) em SP. Sei que ainda veremos muitas inovações nessa área, o pré-sal vai injetar dinheiro, recursos e oportunidades no Brasil e o internacionalista será, sem dúvidas, um dos profissionais cotados nesse cenário vindouro. Mas para tanto, ele deve se preparar gerencialmente, aprimorar certas ferramentas profissionais (negociação em idiomas estrangeiros e ambientes de crise; redação técnica, objetiva e diplomática; análise do contexto e não apenas de cenários) e o mais importante, saber aonde quer ir.

De um internacionalista que adora seu curso.

2 comentários:

  1. Muito bom, vc falou mt bem! Eu sò nao sou a favor de aulas de portugues no curso. Acho que è a base pra uma pessoa que entra na faculdade, ainda mais para um curso como RI. E seria mais uma matéria que ocuparia o espaço de uma outra mais importante. Td bem que nao temos um ensino fundamental e superior tanto forte, mas nao acredito que seja necessàrio.
    E respeito a Teoria de RI eu acho que deveria substituir com Història de RI, principalmente dos anos 50 a hj que è fundamental para entender RI hj.

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  2. Fiquei muito satisfeita ao terminar de ler suas observações no campo das Relações Internacionais, e ainda mais ao ver que muitas das minhas indignações também contam no texto, como a falta da parte prática nos cursos de RI.

    Eu comecei em 2009 e mesmo assim, rumo a completar meus quato anos no curso, ainda acho que há tanta coisa para aprender, afinal a área de humanas é vasta e continua, segue o fluxo da evolução dos acontecimentos, da história. Realmente gostaria de ter tido um preparo maior na parte prática, sem falar na área de pesquisa, que é tão fascinante mas ainda tem muitas faculdades que não dão a mínima para a mesma.

    Português? Nossa, acho que essa é uma reclamação nacional porque realmente porque muitos universitários entram na faculdade sem ainda ter habilidade com a língua materna.

    Enfim, não vou pontuar o que você já falou, pois foram pontos abordados divinamente.

    Sucesso, goiano.

    Camila

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